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Da escola de sargento para agricultura
Seg, 16 de Abril de 2018 14:30

Ele completou o curso de formação de sargento em Fortaleza, mas suas mãos já estavam calejadas com o roçado e a vida na agricultura desde os 7 anos de idade, quando ajudava o pai na produção de milho e feijão. A equipe de reportagem da Ematerce foi conhecer essa história inspiradora de trabalho e perseverança, quando a Agricultura Familiar transforma tudo ao seu redor


Na primeira série se reportagens em 2016, a equipe de Comunicação da Secretaria de Desenvolvimento Agrário (SDA) publicou uma série de reportagens sobre as inovações e como o produtor rural enfrentava seis anos de estiagem em plena produção. Agora, em 2018, a equipe de Comunicação da Ematerce vai percorrer dezenas de municípios identificando como essas inovações vem fazendo a diferença a partir da assistência técnica e extensão rural e os mecanismos usados para driblar as dificuldades, agora com uma quadra chuvosa bem mais promissora.

Foram mais de cinco mil quilômetros percorridos entre o Sertão Central, Cariri, Cariri Oeste, Ibiapaba, Região Norte, Sertão Centro Sul e Vale do Jaguaribe. Apesar de diferentes cultivares e tecnologias usadas pelo sertanejo, a série mostra algo em comum: a força da mulher e sua participação cada vez maior no cenário da economia rural e a determinação de produtores, que buscam alternativas e conhecimento para continuar produzindo com qualidade, de forma compartilhada, competitiva e sustentável. São histórias com lições de vida, de luta e conquistas pelos “novos sertões, que o leitor vai conferir e se encantar.

Dizer que a história de Antônio Malaquias dos Santos, 59, é de desafios e superação seria correto mas, ao mesmo tempo, quase simplório. A trajetória de vida e de trabalho de “Seu Malagueta”, como é carinhosamente conhecido na comunidade Agrestinho Barra Sabão, zona rural do município de Porteiras, região do Cariri Leste cearense, 530 quilômetros de Fortaleza, é amor à vocação e a uma identidade de vida. Amor à agricultura e uma identidade de lutas, pela qual é forjada a grande maioria dos produtores rurais cearenses.

Hoje Malagueta produz nos 5,4 hectares de sua propriedade melancia, Jerimun, banana, macaxeira, feijão, mamão e goiaba irrigadas por microasperção, a partir de um poço com vazão de 30 mil litros/hora. “Quando comecei com as bananas aqui nessa região onde passava um riacho todo mundo ficava brincando e dizendo que eu tava maluco, que não ia dá certo. Hoje tá aqui oh ! Tem pé que tá me dando uma penca de 150 a 200 bananas e é somente a primeira leva”, diz orgulhoso o produtor, enfatizando que não usa nada de agrotóxico; apenas defensivo orgânico produzido com elementos da própria natureza como esterco e urina bovinos, planta nim e folhas secas.

Antes de começar a entrevista fomos “avisados” da difícil história de sua superação do alcoolismo iniciada um pouco depois da perda do pai, aos 21 anos. Antes que pudéssemos perguntar algo sobre o assunto, ele se adianta. “Eu vivia uma vida de desmantelo, de depravação mesmo. Se não fosse essa mulher aqui, eu não sei o que seria de mim”, fala Malagueta sendo já repreendido aos risos acanhados pela esposa, a agricultora Núbia Vasconcelos, 55 anos, de que “não precisava falar disso”. O homem magrelo, caboclo de cabelo grisalho, sorriso de cantinho de boca e forte nas palavras, não hesita. “Foi assim mesmo, tem que contar tudo”, diz Malagueta.



Malagueta começou trabalhando nas terras de outros produtores e chegou a receber como pagamento “taco de fumo”. Núbia começa a rir novamente com a desinibição do esposo contando sua trajetória. Atualmente, vem trabalhador de municípios vizinhos do estado pernambucano para trabalhar na roça da macaxeira ou o feijão de Malagueta. “Comprei tudo isso como o trabalho de 18 tarefas que fazia nas terras do Bento Rozeno”, explica Malagueta.

Com os R$ 12mil financiados pelo Banco do Nordeste (BNB), a partir de projeto elaborado pela equipe técnica da Ematerce, foi realizada a escavação de uma cacimba e produção e produção do feijão irrigado. Com isso, o agricultor vem somando conquistas e atualmente, além de comercializar para a feira local, já vende jerimun e feijão para o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) desde 2017. São sete mil quilos de feijão vendidos para o programa.

Com o cacimbão fechado por um acidente na elevação da estrutura, o poço atende a todas as necessidades do agricultor. As terras adquiridas trabalhando no roçado de um proprietário local, foram fruto de um trabalho de oito anos numa parceria de quase 40 anos com a esposa.

O sinal de amor e gratidão pela mulher é uma prova da transformação de como a terra bem trabalhada, cuidada, zelada, pode render bons resultados e muito mais ao agricultor familiar, ainda que com poucos recursos financeiros. Na hora de mostrar o pequeno criatório suíno com quatro matrizes, um reprodutor e alguns animais já prontos para a comercialização, Malagueta vai revelando a alegria de ter criado algumas saídas para pequenas situações do dia a dia como o berçário para os bacurins e o equipamento para mistura de ração, onde inventou uma base de cimento onde a peça de mistura fica inclinada e permite uma mistura mais eficiente. “Já tenho 10 animais com 60 quilos prontos para o mercado”, comemora.

Água

Com o poço em pleno funcionamento e a produção rotativa de goiaba, jerimun, macaxeira junto com a produção de banana, Malagueta já prevê o que pode fazer com a água do cacimbão interditado. “Já ouvi falar na criação de peixe e tô pensando em tentar em fazer aqui também”, disse o produtor animado com o que já vem conhecendo, também, sobre o manejo na produção da banana, a forma correta do corte da planta depois da colheita e mostrando que os tempos difíceis foram de aprendizado e crescimento ligando a máquina que abastece a plantação de mamão e água jorrando pura. “Olhe...e isso tudo aqui eu nem fiz análise de solo ainda viu !!!”, conta esperançoso acompanhado do agente rural Cícero Maciel de Lima e da gerente local do escritório da Ematerce Fátima Benício.


A análise do solo das terras de Malagueta e Núbia, segundo Cícero, já estão sendo feitas por um laboratório no município de Tabuleiro do Norte. A assistência técnica do órgão, segundo o produtor, foi muito importante para ter acesso ao crédito bancário, através da DAP (Declaração de Aptidão do Pronaf) e do relacionamento com a gerência do banco. O trabalho no sítio da família foi acompanhado, ainda, pelo coordenador do PAA pela Ematerce Reginaldo Rodrigues Ribeiro e Edna Cleide da Silva, secretária de Agricultura e Meio Ambiente da Prefeitura de Porteiras.

Crescimento

Além do crescimento na produção e comercialização, Malagueta não para de pensar em como melhorar seu trabalho. Além de quase sargento do Exército, o agricultor terminou o curso técnico em contabilidade e já sabe bem manusear os números e os resultados do seu esforço. Junto com a esposa e os dois filhos, José Everton dos Santos (técnico agrícola), 20, e José Evandro dos Santos (técnico em Agroecologia), 26, vai tocando os seus sonhos e realizações.

Com o primeiro filho com o curso técnico agrícola incompleto e o segundo atuando na ACB (Associação das Comunidades de Base), em Porteiras, a família vai se complementando em conhecimento, esforço e vontade de acertar.



A única conta que Malagueta ainda não sabe fazer bem é o tempo de casado com Núbia. “Eita, agora você me pegou. Eu mal dou conta de deixar essas produções todas aqui, é trabalho muito, com essas contas não sou bom não, mas sei que é muito tempo”, diz sorrindo o produtor. Em 23 de abril próximo serão 35 anos de casados.


DADOS DE ALGUMAS CULTURAS IRRIGADAS E SUINOCULTURA

RESULTADOS OBTIDOS EM 2017, PELOS AGRICULTORES FAMILIARES ASSISTIDOS PELA EMATERCE, EM TODOS O ESTADO

BANANA DE MESA E PARA A INDÚSTRIA

349 agricultores assistidos

489,5 hectares plantados

9.777.727 kg - produção obtida

22.341,33 kg/hectares – produtividade média

 

GOIABA

74 produtores assistidos

50,55 hectares plantados

646.616 quilos- produção obtida

13.499,29 quilos/hectares- produtividade.

 

MAMÃO

65 produtores assistidos

47,8 hectares- área plantada

729.022 quilos- produção obtida.

27.719,46 quilos/hectare- produtividade.

 

JERIMUM

35,0 produtores assistidos

33,4 hectares – área plantada

410.000 quilos- produção obtida

14.328,35 quilos/hectare- produtividade

 

MELANCIA

28 produtores assistidos

28,3 hectares – área plantada

769.541 quilos- produção obtida

27.681,33 quilos/hectare – produtividade.

 

FEIJÃO VIGNA E VERDE

389 produtores assistidos

433,75 hectares – área plantada

552.954,5 quilos – produção obtida

1.996,78 quilos/ hectare- produtividade.

 

SUINOCULTURA

5.573 produtores assistidos

52.717 animais – rebanho assistidos

25.819 animais comercializada/consumidas.


Reportagem e fotos: Aécio Santiago

Arte: Elane Lima

Revisão: Edilmo Gurgel


Assessoria de Comunicação Secretaria do Desenvolvimento Agrário

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