Projeto São José é finalista no Prêmio Seaid com iniciativa que exalta a cultura alimentar indígena do Ceará
22 de janeiro de 2026 - 16:19 #projeto são josé #projeto são josé iv
Texto: Elane Lima | Foto: Slow Food e Elane Lima
A Secretaria do Desenvolvimento Agrário (SDA), por meio do Projeto São José (PSJ), leva o Ceará a Brasília não apenas como candidato a um prêmio nacional, mas como representante de uma memória viva. O projeto é finalista do Prêmio Seaid Antônio Sabino: Iniciativas Transformadoras para a Sustentabilidade Ambiental e Climática, com a experiência Território e Cultura Alimentar no Ceará, que será apresentada no dia 4 de fevereiro, durante o evento de premiação. O reconhecimento nasce do território, da escuta qualificada e da decisão política de colocar os saberes tradicionais no centro das políticas públicas.
Mais do que uma distinção institucional, a indicação simboliza um gesto de reparação histórica. Valoriza povos que, ao longo do tempo, cuidaram da terra mesmo diante de condições adversas. “Esse reconhecimento mostra que desenvolvimento não apaga histórias, ele as fortalece”, afirma Lafaete Almeida, coordenador do Projeto São José. “Quando o Estado escuta os territórios, aprende a construir políticas públicas com mais consistência e visão de futuro.”
A iniciativa ganha destaque nos territórios indígenas da Aldeia Rajado, na Serra das Matas, do povo Tabajara, em Monsenhor Tabosa; da Aldeia São Manoel, também do povo Tabajara, em Tamboril; da Aldeia Gameleira, do povo Tapuya Kariri, em São Benedito; e da Aldeia Fernandes, do povo Kanindé, em Aratuba. Nessas comunidades, o alimento ultrapassa a função nutricional e expressa identidade, cuidado coletivo e resistência histórica.
A cultura alimentar assume papel estratégico no enfrentamento das mudanças climáticas e no fortalecimento da segurança alimentar. As mulheres indígenas ocupam posição central nesse processo, como guardiãs das sementes, da memória e das decisões coletivas. “Nossa alimentação revela quem somos e como sobrevivemos aqui. Cada semente guarda a história do nosso povo. Quando cozinhamos, ensinamos e protegemos. Onde há panela no fogo, há também política em construção”, relata a educadora indígena Emanoela Feitosa, da Aldeia São Manoel.
Ao integrar educação patrimonial, comunicação popular e respeito aos tempos das comunidades, o Projeto São José se consolida como uma ponte entre passado e futuro. “Nosso compromisso é garantir que esses saberes sigam vivos, circulando entre gerações, alimentando corpos, territórios e projetos de vida”, afirma Karina Holanda, gerente de Fortalecimento do Projeto São José. “A sustentabilidade que defendemos nasce do diálogo, da confiança e do reconhecimento de que os territórios sabem o que precisam para continuar existindo.”
Inventariar para existir: o trabalho do Projeto São José com o Slow Food
Em parceria com a Associação Slow Food do Brasil (ASFB), o Projeto São José desenvolveu um inventário participativo da cultura alimentar no âmbito das ações do projeto Território e Cultura Alimentar no Ceará, em quatro territórios indígenas do estado. Com base na educação patrimonial, na escuta ativa e no protagonismo das comunidades, foram elaborados inventários participativos da cultura alimentar de cada povo envolvido.
O processo mobilizou troncos velhos, mulheres e homens, jovens e crianças para o registro de variedades agrícolas, sementes crioulas, tratos culturais, receitas, remédios, rituais, modos de criação de animais e práticas de manejo da Caatinga. “Inventariar significa reconhecer e registrar saberes vivos, que se adaptam e perduram ao longo do tempo. Cada elemento inventariado compõe o patrimônio cultural imaterial de cada comunidade e a ela pertence”, afirma Lígia Meneguello, da ASFB.
A iniciativa fortalece a identidade cultural, a autonomia alimentar e o direito dos povos indígenas de narrar a própria história, com respeito à oralidade, aos tempos e aos sentidos de cada território.
Prêmio Seaid Antônio Sabino: reconhecimento que nasce do território
O Prêmio Seaid Antônio Sabino é uma iniciativa da Secretaria de Assuntos Internacionais e Desenvolvimento que valoriza experiências capazes de enfrentar desafios ambientais e climáticos por meio da inovação social e do impacto concreto. A premiação reconhece projetos que articulam sustentabilidade, inclusão e políticas públicas comprometidas com os territórios.
Agora, o projeto Território e Cultura Alimentar no Ceará segue para votação interna entre os colaboradores da Secretaria de Assuntos Internacionais e Desenvolvimento do Ministério do Planejamento e Orçamento. A cerimônia de premiação e o resultado final acontecem no dia 4 de fevereiro em Brasília.
Ao lado de outras 5 iniciativas do Espírito Santo, Paraíba, Minas Gerais, Salvador e São Paulo que concorrem ao prêmio final, o Projeto São José coloca o Ceará no centro do debate nacional sobre clima e cultura. Reafirma, assim, que soluções duradouras surgem quando o Estado reconhece os saberes tradicionais como parte essencial do desenvolvimento e da proteção da vida.







