II Encontrão Mulheres Rurais celebra a força, o empreendedorismo da mulher no campo cearense
16 de abril de 2026 - 17:23
Texto: Alice Sousa e Elane Lima | Fotos: Davi Farias
A Secretaria do Desenvolvimento Agrário, por meio do Projeto São José, realizou, no dia 14 de abril, o II Encontrão Mulheres Rurais, reunindo agricultoras, produtoras, representantes institucionais, autoridades e especialistas em uma programação voltada à valorização das conquistas e ao debate sobre os desafios e perspectivas das mulheres no meio rural. Com atividades que integraram troca de saberes, fortalecimento de políticas públicas e manifestações culturais, como a Feira D’Elas, o evento reafirmou a importância de iniciativas voltadas à promoção da dignidade, da autonomia e do protagonismo feminino no campo.
O encontro reuniu representantes de instituições parceiras e autoridades comprometidas com o fortalecimento das políticas públicas voltadas às mulheres rurais, entre eles o secretário executivo do Desenvolvimento Agrário, Marcos Jacinto; a secretária executiva do Fomento Produtivo e Agroecologia, Irineuda Lopes; o deputado estadual Moisés Braz; a secretária da Igualdade Racial do Ceará, Zelma Madeira; o representante do Projeto São José, João Nogueira; e a coordenadora do Edital Mulheres Rurais, Nadir Chaves. A programação também contou com a presença de representantes da Ematerce, do Nutec e da Universidade Federal do Ceará (UFC).
A secretária Irineuda Lopes, reforçou a necessidade de fortalecimento de políticas públicas voltadas para mulheres rurais. Em seguida, Marcos Jacinto, ratificou a ideia: “A Secretaria do Desenvolvimento Agrário trabalha com o compromisso de garantir que iniciativas como o edital Mulheres Rurais cheguem na ponta, gerando não apenas fomento financeiro, mas autonomia, dignidade e oportunidades reais de crescimento para quem produz, inova e alimenta o nosso Estado”, declarou o secretário executivo.
A abertura do II Encontrão Mulheres Rurais ganhou ainda mais força com o depoimento da produtora de suínos e beneficiária do edital, Raiana Nobre. Natural da zona rural de Ibaretama e bióloga de formação, ela emocionou o público ao compartilhar uma fala potente sobre autonomia, permanência no campo e superação de estereótipos, reforçando que, para as mulheres rurais, o êxodo já não é mais o único caminho possível. “Ficar no campo tornou-se uma escolha. Uma opção viável, rentável e importante para a economia. (…) Vejamos nós, todas aqui limpinhas, perfumadas, de batom, de cabelo arrumado. Essa é a imagem que passaremos daqui para frente, de quem somos, de onde estamos e do que fazemos”, destacou Raiana Nobre.
Parcerias que Fortalecem: Cultura, Inovação e Direitos
A primeira roda de conversa do dia, mediada pela coordenadora do edital Mulheres Rurais, Nadir Chaves, focou nas redes de apoio à mulher do campo. O painel reuniu a professora aposentada da UFC, Gema Galgani; Vanessa Moreira, da Escola de Gastronomia Social Ivens Dias Branco; e as produtoras beneficiárias Edneuly Lourenço e Izamara de Paula. O momento também rendeu uma homenagem a Karina Holanda, Gerente de Fortalecimento Institucional do Projeto São José (PSJ).
Durante o debate, a professora Gema Galgani trouxe uma reflexão poderosa sobre a relação entre o Estado e as produtoras rurais, desmistificando a ideia de “assistencialismo”. “Os editais não vêm como presente. Não é presente. É direito. (…) Nós não podemos ficar isoladas. Sabe por quê? Porque vocês são cidadãs. A gente precisa desenvolver dentro da gente a cultura do direito para que o Brasil seja de todas”, pontuou a professora aposentada.
Vanessa Moreira destacou o papel histórico da mulher na preservação da cultura alimentar cearense. Ela ressaltou como a sabedoria de transformar o pouco em sustento e dignidade para a família é, hoje, a base para inovações apoiadas pelo Estado. “São vocês que aprenderam a fazer receitas com o pouco que tinha (…) e transformaram essas receitas de família até hoje em estratégias de sobrevivência e de dignidade no campo. Vocês são a base para pensarmos o combate à fome e a soberania alimentar”, reforçou Vanessa.
Edital Mulheres Rurais: o que deu certo? o que podemos mudar?
No período da tarde, a segunda roda de conversa, intitulada “O que pode ser diferente?”, reuniu participantes em um espaço de escuta, avaliação e construção coletiva sobre os próximos passos do edital. O momento contou com a presença do deputado estadual Moisés Braz e do coordenador do Projeto São José, Lafaete Almeida, que dialogaram com o público sobre os avanços da iniciativa e os desafios para o seu aperfeiçoamento.
Durante o painel, as participantes puderam destacar os acertos da experiência vivenciada e apresentar sugestões para fortalecer as próximas edições. Em sua fala, Lafaete Almeida emocionou o público ao refletir sobre os 30 anos de trajetória do Projeto São José e o marco histórico de colocar as mulheres rurais no centro das prioridades da política pública.
Segundo o coordenador do Projeto São José, Lafaete Almeida, “o grande ganho desse projeto não é aquele recurso de 30 mil reais. É a semente que ele deixa plantada no coração e na mente de cada uma. Os negócios podem até mudar de rumo, mas a transformação de se perceberem como sujeitas que mudam a realidade, isso vocês levam para a vida”, destacou.
Moisés Braz, relembra suas próprias raízes na agricultura familiar e na luta sindical contra a opressão no campo, celebrou a resiliência das participantes: “Se a gente tem fé, a gente é capaz de vencer. Nós estamos começando a vencer várias etapas“.
A Voz do Campo: Protagonismo e Autoestima
Um dos momentos mais marcantes do evento foi o depoimento das próprias beneficiárias, que traduziram, em suas falas, os impactos concretos das políticas públicas em suas trajetórias. Os relatos evidenciaram histórias de superação, autonomia e uma nova compreensão sobre o papel da mulher rural na sociedade.
A produtora rural Edneuly Lourenço compartilhou os desafios enfrentados dentro da própria família durante o processo de elaboração do projeto e destacou a importância de acreditar no próprio potencial. “Eu passei três noites escrevendo [o projeto] e meu esposo falando que era besteira, perda de tempo. Hoje, quando olho para trás, eu penso: ainda bem que eu passei aquelas três noites em claro escrevendo. Cada uma de nós é capaz de conquistar o que deseja, só precisamos acreditar em nós mesmas”, relatou.
Segundo Izamara de Paula, produtora de doces e beneficiária do Projeto São José, participar do encontro representou um momento de fortalecimento, reconhecimento e renovação da confiança em seu trabalho. “Participar desse momento me fez enxergar que o nosso trabalho tem valor e que a mulher rural pode, sim, sonhar grande. Hoje eu me sinto mais confiante para seguir com a produção dos meus doces, gerar renda e mostrar que nós somos capazes de transformar a nossa realidade”, destacou.
Nos bastidores, ao final da programação, a pescadora e beneficiária Maria Márcia também resumiu, de forma espontânea, a emoção vivida ao longo do encontro: “Isso que eu vivi aqui durante esse evento eu não esqueço é nunca!”.
Feira D’Elas valoriza produção e protagonismo feminino no campo
Um dos destaques da programação foi a Feira D’Elas, espaço dedicado à valorização do trabalho e do protagonismo das mulheres rurais. A iniciativa reuniu paarticipantes do encontrão, que levaram seus produtos para exposição, apreciação e comercialização, evidenciando a diversidade da produção desenvolvida no meio rural cearense.
Mais do que um espaço de venda, a feira se destacou como uma vitrine de saberes, talentos e histórias de superação, fortalecendo a geração de renda e ampliando a visibilidade dos empreendimentos liderados por mulheres. O momento reafirmou a importância de políticas públicas que incentivam a autonomia econômica e reconhecem o papel fundamental das mulheres no desenvolvimento do campo.
O II Encontrão Mulheres Rurais foi encerrado em clima de celebração, com apresentações circenses e musicais. Mais do que um momento festivo, o evento deixou uma mensagem potente: as mulheres do campo cearense conhecem seus direitos, valorizam suas histórias e seguem firmes na construção de novos caminhos.









